A LIBERDADE DE FAZER UMA TRILHA EM SUA PRÓPRIA COMPANHIA: LIVRE

“Livre” é uma adaptação do livro de Cheryl Strayed sobre sua jornada pessoal por uma longa trilha pela costa oeste dos Estados Unidos, em busca de refletir e se livrar do peso de suas difíceis experiências do passado. Não li o livro, portanto não tenho como fazer uma comparação entre o original e o filme. Adaptações (e principalmente biografias) são delicadas pelo fato de submeter o material original à visão de uma outra pessoa (o diretor). No filme estamos sempre vendo as observações de uma pessoa sobre a história de outra, e invariavelmente o que chega até nós é uma mistura de ambos. Tanto o diretor está preso a uma certa correspondência com o material original (do contrário teria que ser uma história “baseada” e não “adaptada”) quanto a história transposta na tela está atada à visão do diretor.

A boa surpresa é que, apesar de tudo, “Livre” passa a sensação de que a própria Cheryl é quem está contando sua história. O filme usa narração offscreen e muitos flashbacks. Sempre tenho ressalva com o último, dá a impressão de que vai trazer uma atmosfera brega para o filme. Mas aqui o recurso é muito bem empregado. Na abertura do filme acompanhamos Cheryl no começo da trilha, no deserto, passando dificuldades, e ficamos intrigados sobre a motivação que a levou a fazer a tal trilha. Logo de início sabemos que é para curar algumas feridas internas, e à princípio o filme parece mais um do tipo “Comer, Rezar, Amar”, principalmente quando descobrimos que tem um divórcio envolvido. Fico com pé atrás de sempre ver histórias desse tipo, mulheres que procuram uma aventura para curar feridas emocionais, enquanto homens o fazem por hobby, pela simples diversão. É como se mulheres precisassem de um motivo a mais, profundo e pessoal, para se jogar em tais aventuras, porque não o fariam em uma situação normal. Já sabemos que existem mulheres que gostam dessas atividades pelo simples prazer de realiza-las, suas histórias só não ganharam a visibilidade necessária ainda. Apesar de não ser uma dessas, a história de Cheryl, nos anos 90, é transposta para a tela com sinceridade, e acreditamos que tudo pelo que ela passou foi real e provável de acontecer. Apesar de reforçar alguns padrões narrativos que só afetam mulheres, a história parece trazer um fiel testemunho da realidade.

Nas primeiras cenas já sabemos que é a primeira experiência do tipo para Cheryl. Ela tem dificuldades de levantar a pesada mochila, leva alguns equipamentos errados e tem alguns contratempos até aprender a melhor maneira de se virar. Felizmente ela também encontra bastante ajuda no caminho. E, invariavelmente, se sente ameaçada em várias outras ocasiões. Há, claro, umas duas ou três ameaças de estupro, e ela mesma se pergunta como teve coragem de sair sozinha numa trilha inóspita, pedindo carona a estranhos. Como ousou fazer tudo isso sendo mulher. Há também uma cena em que ela encontra alguns rapazes na trilha que a elogiam por sua bravura em chegar tão longe, quando muitos outros já tinham desistido no meio do caminho. Eles resolvem dar um apelido a ela, “Rainha da PCT” (PCT é o nome da trilha – Pacific Crest Trail), porque ela foi capaz de conseguir muita ajuda de estranhos. Os rapazes reclamam que as pessoas não foram tão solícitas com eles no caminho, e portanto ela era privilegiada como uma rainha por conseguir tanta ajuda. Há aí o tal do sexismo benevolente (mais sobre isso aqui aqui), ignorando o fato de que muitos dos ajudantes cobravam uma saída com ela em troca de ajuda, além dos constantes comentários sobre sua aparência. “Linda”, “doçura”, e coisas do tipo. Às vezes é incômodo ver Cheryl não reagir a alguns desses episódios, mas por outro lado isso traz uma incrível sensação de realidade (infelizmente acho que também não vai trazer muita reflexão aos espectadores). É chocante relembrar através dessa história que as mulheres ainda não podem ter a liberdade de sair por aí sozinhas, se aventurando “no meio da floresta” como um dos caras diz literalmente, sem temer mil ameaças à sua integridade física. Claro, homens também temem serem assaltados ou assassinados, mas estupro não é o primeiro temor da lista. Claro, roubo e assassinato também são bem prováveis de acontecer com mulheres, principalmente pelo fato de serem consideradas mais fracas e mais suscetíveis a violência. Também não sei em que medida o diretor enfatizou demais esse aspecto do assédio sexual na jornada da protagonista, já que é um recurso narrativo usado à exaustão no cinema e na literatura. Pelo menos nesse filme isso não é usado como ponto de partida para um crescimento espiritual ou libertação de Cheryl (ou como conflito dramático para avançar a estória).

Enfim, voltando a falar dos flashbacks, eles complementam muito bem a história da protagonista, revelando aos poucos o que aconteceu em seu passado e nos dando informação sobre sua personalidade. Vi alguns críticos falando que eles prejudicam o ritmo do filme, mas eu discordo. Eles são inseridos organicamente na trama, e nos permitem pouco a pouco compreender cada vez mais as motivações de Cheryl e sua razão para ingressar na trilha. Enquanto os problemas amorosos soam um pouco clichê de tanto aparecerem nessas histórias de redenção, o relacionamento com a mãe é vivo e tocante. Laura Dern está cativante no papel da mãe, e uma das cenas mais especiais é uma conversa que ela tem com Cheryl na cozinha, explicando sua atitude alegre em relação à vida e porque insiste em ser feliz apesar de todo o sofrimento por que passou. Uma escolha interessante também foi trazer os flashbacks em um padrão fragmentado, emulando a maneira com que Cheryl resgata suas memórias.

No fim, apesar de ser uma história tão pessoal, a insistência de Cheryl em percorrer uma trilha tão difícil até o fim traça um paralelo com ato de finalizar aquelas coisas tão difíceis de serem terminadas. Apesar de todo o esforço para sobreviver na trilha, ela tem mais medo é de quando a trilha acabar e ela tiver que finalmente encarar a vida real. Durante a trilha é quando ela tem a oportunidade de ficar sozinha consigo mesma, refletir sobre seus conflitos e traçar um plano para sua vida depois dali. Fico um pouco triste que o final também traga o prospecto de um novo relacionamento romântico. Apesar de ser uma história pessoal (e real), mais uma vez liga a redenção de uma mulher (como em “Comer, Rezar, Amar”) ao fato de encontrar um novo amor. Ainda não existem filmes nem histórias suficientes que balanceem esse destino, trazendo a mensagem (sutil, porém presente) de que a vida de uma mulher gira necessariamente em torno da realização romântica.

Mas enfim, no final Cheryl conquista o espírito do título em português (o em inglês, Wild, parece um pouco fora de sentido, como explicado nessa crítica). Ela completa mais um passo rumo à liberdade. Além da liberdade simbólica de se livrar do peso do passado, também a liberdade de fazer uma trilha perigosa sozinha. Pela liberdade de que mulheres possam sim, sair desacompanhadas e completar o percurso. Que um dia possamos fazê-lo sem medo de tantas ameaças, o que certamente será possível por causa dos primeiros passos dados por mulheres como Cheryl.

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