48º FBCB – TARÂNTULA + RAPSÓDIA PARA UM HOMEM NEGRO

O terceiro dia da mostra competitiva Festival de Brasília contou com um curta-metragem produzido pela Filmes de Plástico, produtora mineira responsável por curtas premiados como Quinze, Quintal e pelo aclamado longa Ela volta na quinta, seguido de um curta-metragem co-dirigido por uma das únicas diretoras mulheres da seleção e feito pelo mesmo grupo que organiza o Olhar de Cinema, um dos mais interessantes festivais internacionais atualmente no Brasil. O longa da noite, Fome, de baixíssimo orçamento e feito em São Paulo, contava com a participação de Jean-Claude Bernardet, que, na apresentação, declarou fazer parte agora da tradição cinema de deambulação, antecipando a temática do filme.

Nesse texto vamos focar nos dois primeiros filmes da noite; Tarântula, de Aly Muritiba e Marja Calafange e Rapsódia para um homem negro, de Gabriel Martins.


Tarântula

O curta dos paraenses Aly Muritiba e Marja Calafange apresenta uma família que vive em um casarão. A mãe e as duas filhas parecem viver imersas em uma vivência religiosa que mistura o temor a Deus com o medo do que há “lá fora”. Como uma metáfora do que algumas expressões da religiosidade pode realmente trazer a algumas pessoas. A presença de um homem na casa, no entanto, parece quebrar certo equilíbrio na vivência familiar.

O envolvimento amoroso (não se sabe desde quando, no filme) deste homem com a mãe provoca sentimentos diferentes na criança e na adolescente. Enquanto a mais nova experimenta identificação (pois o homem não tem uma perna, ao passo que a garota não tem um dos braços), a mais velha se mostra avessa à nova presença e atua como agente do terror, na tentativa de expulsa-lo (ou exorcizá-lo). A motivação por trás dessas tentativas é envolta em mistério. Alguns colegas me disseram que viram ali fortes indícios de abuso sexual do homem com a filha mais velha, que levariam a moça a usar de todos os recursos para afastar a irmãzinha do mesmo mal. A vaguidão das motivações e intenções do curta é um dos elementos que tornam o filme pouco palpável.

O casarão representa sempre aquele lugar de onde é quase impossível sair. Os sonhos da menina mais nova encontram-se todos dominados pelos signos que ela conhece, e o homem é como uma porta que se abre para outras possibilidades. Fica a dúvida, então, se a jovem é apenas um espírito atormentado tentando se defender do mal (o homem), ou se é dominada por ciúme ou medo do desconhecido. Ambas as interpretações se encaixam bem na lógica dos filmes de terror. No entanto, a paralisia dos enquadramentos e da mise-en-scéne excedem a história do curta, e por fim temos uma obra que não entrega o que promete, demorando-se tanto em criar a tensão que, quando alcança o clímax, parece uma pequena surpresa.


 

Rapsódia para um homem negro

Mais um homem negro foi morto pela polícia. Em um dia comum, tudo o que veríamos seria uma família desolada por alguns segundos na rede local, algumas pessoas tentando se fazer ouvir, e a sociedade seguindo em frente, porque o mundo não espera, e a vida do preto vale pouco, bem pouco.

Nesse curta-metragem dirigido por Gabriel Martins, a dor se faz ouvir de maneira dilacerante em todo a primeira parte do filme, em que vemos Odé sentindo, através de sonhos e lembranças, todo o impacto da perda do irmão. A formalidade do lamento não tira sua profundidade, embora possa levar a certo distanciamento, num momento inicial. Não se sabe exatamente o que aconteceu, para além do espancamento, da brutalidade. Nem é necessário sabe-lo: o curta tenta nos levar para dentro da tragédia, dos poemas e alegorias, que falam de Oxóssi e Ogum, do caçador e de sua missão, e do que Odé precisa lembrar para trazer sentido ao que aconteceu em sua vida e ao que acontece na periferia, em Minas Gerais, no Brasil.

A sequência final do filme, em que a missão do caçador se revela, é de tirar o fôlego. A vingança através do arco e flecha de Odé, com os homens brancos e engravatados caindo como bonecos no chão, poderá tocar a ferida de muitos. A aproximação com os sentimentos do vingador quem assiste ao filme que aquele não era só mais um homem preto morto. Era o irmão, o pai, o filho, o amor de alguém. Um guerreiro, um caçador, de valor intrínseco, com sangue correndo pelo corpo. E que os Odés do mundo continuarão clamando por justiça.

 

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