48º FBCB – A OUTRA MARGEM + HISTÓRIA DE UMA PENA

O sexto dia do Festival de Brasília teve alguns dos filmes mais interessantes da seleção de 2015. O primeiro, A Outra Margem, vencedor do prêmio de Melhor Direção dentre os curta-metragens, deu a oportunidade à Nathália Tereza para apontar a escassez de mulheres realizadoras na seleção do festival deste ano durante seu discurso de premiação. O segundo, História de uma Pena, de Leonardo Mouramateus, marca, mais uma vez, a forte presença do jovem diretor nos festivais do país. A noite foi fechada pelo anticlimático longa-metragem Santoro, filme brasiliense cuja presença na mostra competitiva foi abertamente questionada.


A Outra Margem

O curta de Nathália Tereza acompanha o que é descrito na sinopse como um agroboy, figura conhecida do centro-oeste do país, região em que o filme se origina. O homem é Jean, que dirige pela sua cidade ouvindo a rádio local. Seu ambiente se desenha em meio aos recados de amor de desconhecidos narrados pelo locutor da rádio e visões de jovens dançando em estacionamentos ao som alto que sai do porta-malas dos carros. Nesse contexto, acontece um encontro.

Quando o homem não está mais sozinho no seu carro, podemos viver com ele sua dificuldade em aproximar-se do outro, uma situação que parece se relacionar a parte mais estéril e emocionalmente bloqueada do que chamamos de masculinidade. Carol passa parte da noite ao seu lado e o convida para dançar, ao que ele responde que não dança, não sabe dançar, não. Quase que à força, ela o guia e aos poucos a tensão anterior parece se esvair.

O trunfo do filme é sua capacidade de transmitir sensações, particularmente a solidão do homem que vaga noite adentro e que aparenta estar preso em sua própria incapacidade de se comunicar e conectar. Talvez seja essa a margem que é cruzada no filme e a delicada mudança de perspectiva que atinge o personagem principal permeia a última cena, na qual ouvimos a música de Guilherme Arantes sendo cantada no karaokê em talvez um dos momentos mais bonitos dessa edição do festival.


História de uma Pena

Leonardo Mouramateus volta ao Festival de Brasília dois anos após Lição de Esqui, filme que lhe rendeu o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Ficção na 46a edição do festival, com História de uma Pena. Ele demonstra, mais uma vez, sua habilidade em fazer recortes sobre a juventude.

O filme é particularmente notável por utilizar a estrutura de curta-metragem de forma perspicaz, trabalhando com a falta de uma causalidade fechada ao não nos explicar motivações, e, consequentemente, externando também a real falta de motivação para as atitudes dos seus personagens. São jovens alunos desinteressados, vivendo seus dramas, suas breves paixões, ocupados demais com a fricção entre eles para se importar com o professor, também jovem, cansado e frustrado.

Essa falta de um estímulo contínuo perpassa todo o filme até a guinada final. Não sabemos por que um casal acorda no meio do mato, o que o professor forasteiro está fazendo ali ou qual é a causa da grande comoção central ao filme. Estamos interessados em entender as relações e o contexto mostrados na tela no momento, a dinâmica entre alunos e professor, a tensão que existe entre eles e se ela vai explodir em algum momento.

O filme é construído de forma a permitir diversas possíveis perspectivas, o que agrega complexidade ao recorte. Com atuações precisas que conferem um realismo revigorante ao filme e com um final que satisfaz as expectativas do público, é uma escolha acertada do festival; mais uma boa obra de Mouramateus.


A crítica de A Outra Margem foi escrita pela colaboradora Karine.

 

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