ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O LOCAL DE FALA E A ARTE

Em filmes, e na arte em geral, costumamos expressar o que nos inquieta, falamos sobre o que nos é familiar, e transcrevemos nossos sentimentos e opiniões. Só que muitas vezes também acabamos escrevendo sobre algo que não conhecemos o suficiente. Às vezes damos a nossos personagens profissões que não sabemos realmente como funcionam, etc. Não à toa temos o costume de falar “é só um filme”, quando reclamam da verossimilhança falha. Ora, o paradoxo está justamente aí: filmes servem como referência pra muitas coisas que o espectador não conhece (como quando mostra algum país que o espectador nunca visitou, por exemplo), ao mesmo tempo que sabemos que uma representação não é a própria realidade, mas apenas um discurso sobre ela. Mesmo assim, ainda mais em artes populares como cinema e música, usamos esses discursos como referência para nossas próprias vidas, afinal a arte não é uma das mais poderosas formas de comunicação? Já ouvi mais de uma vez coisas do tipo “lembra que, em Tropa de Elite, o Capitão Nascimento encheu de porrada aquele político?” para se referir a como resolver algum conflito urbano da vida real.

O perigo é que, muitas vezes, temos apenas um único discurso à nossa disposição sobre um determinado assunto. Obviamente, produzido em geral pelas classes dominantes, no nosso caso: homens brancos ricos. Por exemplo, quando Fernando Meirelles, do alto de sua posição classe média-alta, filma Cidade de Deus, o quanto podemos confiar na sua representação daquela história e daquela favela? E se dizemos “mas é só um filme”, o quanto não recorremos às imagens que vimos neste filme para formar nossa opinião sobre essa favela e as pessoas que lá habitam? Quantos cineastas que moram na Cidade de Deus estão fazendo filmes que a maioria da população do país terá acesso para balancear as referências sobre ela?

O mais perverso, talvez, seja quando decidimos fazer uma “homenagem” a alguém que é historicamente oprimido por nós. Quantos jornalistas não fazem matérias sobre pessoas marginalizadas, ou sobre os sobreviventes de tragédias, mas cujo objetivo maior é na verdade se sentir herói e ganhar prêmios de reportagem depois? E quantos de nós, pessoas brancas privilegiadas, não escrevemos músicas, poemas e filmes sobre pessoas marginalizadas, só para que nos sintamos bons samaritanos, esperando os elogios de outrem, que nos dirão o quanto somos conscientes e maravilhosos? O famoso “querer biscoito”. Quando alguém aponta algo de problemático em nossa arte, dizemos “mas a minha intenção é homenagear”. Quantos homens não escreveram inúmeras músicas “homenageando” mulheres, ou, mais especificamente, suas formas físicas, sua aparência. Não é “Garota de Ipanema” o epítome da homenagem? (ou seria da objetificação?) Não foi o Romantismo brasileiro em sua fase indianista, ao idealizar os índios como herois nacionais enquanto eles permaneciam sendo exterminados na vida real, um dos capítulos mais hipócritas da nossa História?

Estes questionamentos estão aqui apenas para que reflitamos sobre o nosso real direito de falar em nossa arte sobre o que não conhecemos, principalmente quando envolve alguém historicamente desprovido de voz para falar por si mesmo. As chances são grandes de que nossa obra saia com um ponto de vista inevitavelmente estrangeiro, e possa ser incômoda para as pessoas que de fato vivem aquela realidade, enquanto poderíamos estar dando meios para que elas contassem suas próprias histórias. Claro que também não devemos usar isso como desculpa para falar apenas do nosso próprio umbigo na arte. Não precisamos ignorar as histórias alheias às nossas, mas entender que há uma linha tênue entre reconhecê-las e se apropriar delas.  Como e o que podemos efetivamente fazer sobre isso, ou não, já é uma questão mais complexa, com muitos pontos de vista e várias divergências, que valem a pena ser esmiuçadas em outro texto. Por enquanto, fica aqui essa reflexão inicial.

Para ler mais sobre apropriação cultural:

O que a nova história de J.K. Rowling revela sobre a apropriação cultural

Apropriação cultural na história do Brasil

Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos

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