Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras

Carol Lucena

Colaboradora do Verberenas desde julho de 2015 e uma das pessoas a criar o projeto.

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OS DIREITOS DE HOJE TIVERAM UM PREÇO: AS SUFRAGISTAS

No mundo de hoje, em que já conquistamos alguns direitos para vários grupos discriminados, somos levadas a crer que já alcançamos um estado de igualdade e liberdade, para que paremos de fazer novas demandas de mudança. Esse mundo justo e igualitário, na verdade, existe apenas na ficção retórica e ainda está longe de retratar a realidade. Por isso vemos algumas pessoas negarem que ainda exista racismo, ou discriminação contra mulheres. Vimos inclusive um fenômeno recente em que mulheres jovens seguravam cartazes dizendo “não preciso do feminismo porque…” seguido de vários argumentos frágeis e que, principalmente, mostram um verdadeiro desconhecimento sobre a história da conquista desses direitos que hoje damos como certos, como se eles sempre tivessem existido.

O movimento sufragista, que demandava a mudança das leis para permitir o voto das mulheres, foi impulsionado pela maior participação das mulheres na vida urbana após a revolução industrial, como trabalhadoras das fábricas e esposas dos grandes burgueses. O movimento foi principalmente liderado por mulheres aristocratas da Europa ocidental e América do Norte, mas este filme dirigido pela cineasta Sarah Gavron optou por focar nas trabalhadoras que executavam as ações de desobediência civil na Inglaterra do começo do século XX. Para isso, o roteiro de Abi Morgan criou uma protagonista fictícia para retratar mais intimamente a vida dessas mulheres sem ter que se atrelar à história específica de uma das personagens reais.

A protagonista é Maud, uma jovem operária de lavanderia, interpretada por Carey Mulligan, e  acompanhamos sua vida sofrida, trabalhando em um local insalubre, com um patrão abusador, ganhando bem menos que seu marido (que trabalha no mesmo local) e tendo sua renda confiscada por ele, além de ter de se desdobrar para cuidar da casa e do filho pequeno. Uma outra operária acaba integrando Maud no movimento sufragista, e a partir daí vemos o desdobrar das manifestações intercaladas com uma sucessão de prisões e perseguições.

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O filme se mantém firme em nos apresentar o porquê da urgência na luta feminina por mudanças, ao nos mostrar os sérios desgastes físicos no corpo de Maud, como uma grande queimadura no braço decorrente do trabalho, e quando Maud conta sua história e nos dá a dimensão da perpetuação da exploração sobre as mulheres: Maud já nasceu naquela lavanderia, sua mãe já era operária quando lhe deu à luz. Maud automaticamente virou trabalhadora da mesma lavanderia, e quando ela pergunta a seu marido “se tivéssemos uma filha, que vida ela teria?”, ele responde “a mesma que a sua.” Isso dá mais uma razão para Maud lutar por mudanças, embora tenha que sacrificar os poucos aspectos bons de sua vida, como a própria casa e a convivência com o filho. O marido, apesar de não demonstrar desaprovação imediata à participação de Maud no movimento, vai com o tempo cedendo às pressões do restante da sociedade, dos vizinhos, e o filme mostra o quanto ele nem sequer suporta assumir as tarefas que Maud era obrigada a lidar sozinha na casa, como o cuidado com o próprio filho.

O filme, ao contrário do esperado, não adota um tom redentor, com um final feliz recompensador. Essa escolha é eficiente na medida em que traz um choque de realidade ao espectador e enfatiza a seriedade do tema. A cena final, inclusive, é emocionante e muito eficaz em mostrar a dimensão política do movimento, ao transicionar para cenas reais filmadas à epoca.  Algo que nos parece tão corriqueiro como o voto, foi extremamente difícil e penoso para aquelas que lutaram por ele. O início dos créditos finais é muito bom ao nos informar as datas em que mulheres conseguiram o voto em vários países, e vemos que na Inglaterra ele só foi conquistado quase 20 anos depois dos acontecimentos do filme. Algumas informações ainda nos chocam, como o fato de que a Suíça só permitiu o voto feminino nos anos 70! E a primeira votação de mulheres na Arábia Saudita, que a imprensa internacional inclusive acompanhou com entusiasmo, foi em 2015.

Porém, algo percebido nos créditos por algumas críticas foi a informação de que na década de 20 o voto feminino foi conquistado nos Estados Unidos, mas sem mencionar que foi apenas para mulheres brancas. De fato, os negros no país só conquistaram o direito ao voto nos anos 60! Ignorar a realidade das mulheres negras, bem diferente das brancas, também se refletiu no elenco: não há uma pessoa sequer no filme que não seja branca, nem mesmo nas multidões que aparecem ao fundo! Isso foi amplamente criticado na época de lançamento do filme, inclusive recomendo esses textos aqui aqui (infelizmente estão em inglês) sobre o assunto. O argumento da diretora para essa escolha foi que na época haviam poucas pessoas não-brancas no movimento, ou vivendo na Inglaterra. Além desse argumento de “representação histórica” ser furado, pois várias pessoas apontaram que o bairro retratado, East London, abrigava uma razoável quantidade de imigrantes e pessoas não-brancas , o fato de inventarem uma personagem fictícia para protagonizar o filme já descredibiliza esse argumento. Porque uma personagem inventada pode ser inserida na história sem problemas, mas retratar pessoas não-brancas (que de fato estavam lá e inclusive participaram do movimento) parece ser demais? Ou porque a própria protagonista inventada não poderia ser uma pessoa não-branca? Ela não foi inventada, afinal de contas? Isso de fato só mostra o quanto é urgente a problematização do feminismo branco que exclui outras realidades e nega experiências e méritos das demais mulheres.

Por fim, uma coisa que me incomodou no filme foi um momento em que Edith, interpretada por Helena Bonham Carter, monta o plano de explodir a casa de campo de um ministro (ela fabricava bombas caseiras e explodia objetos públicos para chamar atenção para a causa), e o filme mostra a reação negativa das outras sufragistas a essa ideia, como algo extremo demais, radical demais, e algumas até se recusam a participar. Esse lado extremo do plano também é enfatizado pelo investigador que persegue as sufragetes (claro) e pelo próprio marido de Edith (que diz se preocupar com a saúde dela). No fim ela acaba seguindo com o plano, explodindo a casa vazia, chamando atenção e acarretando uma nova onda de prisões.

Porém, o interessante é notar como este momento no filme é problematizado, quase culpando as militantes mais extremas por esses atos. Sendo que o ato foi um ataque à propriedade (a casa vazia de um político importante) sem intenção de ferir ninguém (e de fato sem ferir) após o fracasso e repressão dos métodos mais civilizados adotados antes. O filme mostra como as manifestações pacíficas e as tentativas de dialogar com os políticos foram ignoradas e violentamente punidas, mas mesmo assim acaba culpabilizando as sufragistas quando resolvem recorrer a métodos mais extremos, reproduzindo um discurso que é muito comum inclusive nos dias de hoje: que existem certos limites (baixos, vale ressaltar) onde as ações são toleráveis, e a partir daí se tornam “radicais demais” e supostamente não contribuem mais para a luta. Você pode reclamar e até lutar pelo fim dos maus tratos contra você, mas só até um certo ponto, de preferência um que não incomode muito. Quando as sufragetes passam a ser uma verdadeira ameaça para os homens no poder, o próprio filme se encarrega de não reforçar essa atitude de confronto direto, como se para não ofender demais o público masculino que for assistir ao filme, e conseguir ser um produto mais aceitável no mercado. (De fato, um filme mais firme nesse sentido provavelmente nem conseguiria ser financiado, que dirá distribuído e indicado a prêmios.) “Destruição de propriedade já é demais”. Afinal, claro, propriedades são muito mais valiosas que a vida de milhões de mulheres. (Sarcasmo, caso alguém não capte).

Embora o filme acabe reconhecendo no final que medidas extremas, apesar de trágicas, podem ser eficazes, o fato de não romantizar essas ações, ou mostrar a desaprovação dentro do próprio movimento, pode funcionar contra a causa em um filme como esse, quase como um prato cheio para os opositores de hoje caracterizarem as ativistas como pessoas radicais e inescrupulosas. E de fato, é assim que ativistas de todo tipo continuam a ser caracterizados em muitas instâncias midiáticas. Um pouco mais de romantização neste filme possivelmente valeria a pena.

E essa problematização é mais engraçada ainda se compararmos com as narrativas que continuamos transpondo para as telas. Pra citar exemplos cinematográficos “recentes”, somos levados a torcer (e nunca questionar) que Frodo destrua a montanha da perdição junto com Sauron e todos os orcs, ou para que Luke Skywalker exploda a estrela da morte junto com vários stormtroopers e líderes do mal dentro. Nenhum personagem próximo a eles chega e diz “será que precisamos realmente exterminar todos os inimigos dessa forma? Será que explodir suas bases e matar todos não é algo muito radical?”. Exagerando um pouco na comparação, Sam não trancou Frodo numa caverna, preocupado com sua saúde, e o impediu de prosseguir com o plano. Ao invés, ele o carregou, mesmo esgotado, até à montanha da perdição, para que eles completassem a missão em que acreditavam. (E isso porque, nesses casos de destruição do inimigo, estamos lidando com a morte de seres vivos, apesar deles serem desumanizados propositalmente nos filmes). Talvez por essas serem histórias fantasiosas, seja mais fácil disfarçar suas mensagens e ligações com o mundo real. Mas esses mecanismos de composição narrativa são eficazes para direcionar o que os espectadores vão absorver da cena, por isso a desumanização dos inimigos é algo tão usado nessas histórias citadas, para que ninguém tenha a chance de empatizar com eles, e é preciso que todos os personagens “do bem” apoiem uns aos outros, raramente questionando os métodos e objetivos adotados, dando menos chance para o espectador fazer o mesmo. É interessante notar como o inverso, embora sutil, acontece em As Sufragistas, com o investigador ocupando grande tempo em cena, e ainda sendo mostrado como uma pessoa capaz de empatizar minimamente com elas, quando questiona o tratamento torturante que elas recebem na prisão, ou em suas conversas com Maud quando diz se preocupar com o bem estar dela. Há chance para se apreender que o investigador “não é tão ruim assim” ou que estava apenas fazendo seu trabalho, sem ter culpa real sobre suas ações.

Ao mesmo tempo, apesar de achar problemática a reação do filme ao plano das sufragetes por causa de seu contexto, talvez pudéssemos realmente começar a usar mais essa abordagem de questionar os métodos usados contra os inimigos em outros filmes. Mostrar nuances e controvérsias enriquece os temas abordados (embora eu saiba que na maioria dos casos essa reflexão quer justamente ser evitada). Isso seria bem interessante de ser adotado principalmente nos filmes que não se propõem a ter uma estética realista, e que, justamente por causa disso, disseminam essa mentalidade de desumanizar o outro de forma tão inconsequente e eficaz.

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