Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras

DA SOLIDÃO A REVOLTA: WHAT HAPPENED, MISS SIMONE?

A escritora Maya Angelou entrevistou a cantora Nina Simone em 1970, para a revista americana Redbook. Quando Nina contava sobre sua infância e adolescência, revelou: “Eu encontrei o amor na juventude, e eu o perdi. Eu perdi o amor e fundei uma carreira”.  A frase seguinte de Maya abre o documentário “What Happened, Miss Simone?”: “Mas, senhorita Simone, você é idolatrada, até mesmo amada, por milhões agora”.

Nina rebateu: “Para mim, estou muito distante da compensação pelo que eu abri mão”. Essa frase parece se conectar à aparente ambição do filme lançado pelo Netflix: a de contar a história de vida de uma mulher que fora ferida mortalmente há tanto tempo que não poderia mais viver sem sangrar.

A diretora americana Liz Garbus acerta em sua tentativa de expor esse sangramento através da combinação de material de arquivo com áudios de entrevistas a Nina: ainda que o método não seja nada inovador e pouco ousado, é eficaz em confrontar o espectador a se perguntar se ele mesmo sairia de uma história de tanta violência e racismo sem alguma chaga. Serve também para gerar uma aproximação através da memória, do encontro com os Estados Unidos da América de ontem, que deixou cicatrizes nos dias de hoje (e se o racismo marca a história de uma nação, como não haveria de marcar uma mulher negra para sempre?). Não há como falar em Nina Simone sem atravessar a história dos EUA junto com ela.

Nina, entre a liberdade no palco e a prisão do mundo real.

Nina, entre a liberdade no palco e a prisão do mundo real.

Essa dinâmica é quebrada por entrevistas com os antigos amigos, com o ex-marido e com a filha, Lisa. Nesses momentos o documentário flerta com a ideia de que ela era tão genial quanto de difícil convivência, devido à personalidade forte e explosiva. É desconfortável ver a filha de Nina atuar como antagonista da própria mãe, ao colocar em cheque até mesmo a vida sexual da cantora e sua aptidão para a maternidade.

Os depoimentos de Lisa são pouco confrontados e muitas vezes assumem o lugar da narração das imagens (que por sua vez, confunde-se com a “verdade”). O mesmo ocorre com a entrevista de Andrew Stroud, ex-marido de Nina. É justo dar o poder da narração ao estuprador, espancador e abusador confesso da personagem do documentário? Em certo momento os objetivos do filme parecem envoltos em certa névoa de desconfiança: estamos assistindo para conhecer, admirar ou para julgar Nina? Alguns blogs manifestaram sua revolta com essa questão (neste post em inglês e neste em português). A revelação (tardia, no filme) de que a cantora sofria com transtorno bipolar surge como que para justificar seus rompantes de fúria, colocando sobre a doença o ônus de sua “loucura”. O que aconteceu a Nina Simone, afinal, é de fato o que a obra se propõe a desvendar, mas tem como principais marcas a ambiguidade e certa conveniência em suas respostas.

Pode-se supor que o filme pretende mesmo quebrar qualquer ideia de mito acerca de Nina Simone, e colocar o espectador de frente com o pior dela, para colocar em perspectiva o pior da humanidade – o cinema, de vez em quando, investe-se dessa missão. Nina foi abusada por ser mulher e dilacerada por ser mulher e negra, testemunha e vítima de uma época criminosa em que o povo negro tinha que matar ou morrer para ser ouvido nos Estados Unidos (será que essa época já acabou?). Nina passou da solidão à revolta, e no caminho aprendeu e absorveu a ação violenta. Quando precisou, usou dela para fazer valer o que acreditava. Em algum momento, o documentário sugere, parece ter sido dominada por essa violência.

Ou talvez a dominasse, e fizesse de seu sangue uma arma, como mais uma manifestação do recado de que o mundo ainda levaria muito para compensá-la.

NAOMI KAWASE, A CÂMERA-PELE E A TRILOGIA DA AVÓ

Na hora de filmar a cena, eu me concentro em registrar a realidade como se fosse um milagre. – Naomi Kawase

A proliferação de tecnologias e maior acesso às mesmas nas últimas décadas causaram um aumento da exposição, singularização e, em muitas situações, espetacularização da intimidade.  Há uma quebra de fronteiras entre público e o privado e as narrativas contemporâneas adotam cada vez mais a forma de testemunho, autobiografia e metaficção, gerando leituras impactantes.

Resultado dessa geração tecnológica, vivemos cercados de informações e inovações, apresentando sintomas de uma inquietação interior comum.  Por ser comum, aplica-se ao coletivo humano uma necessidade de preenchimento desse vazio “instalado pela era do excesso, do transbordamento, do acúmulo, do pessimismo”, como colocado por Isabelle Hattanda em Uma proposta de cinema contemporâneo transcendental.

Os filmes da cineasta japonesa Naomi Kawase têm forte presença de ausência e de perda; são experiências de vida que envolvem o aprendizado do corpo ao lidar com a dor, mas de forma leve, sem ressentimento. Essas características são ainda mais fortes em seus documentários, uma vez que se trata dela mesma lidando com suas próprias dores: o abandono dos pais, sua busca por eles, a morte iminente de sua tia-avó que a criou como filha. A ausência se faz presente em matéria fílmica.

Feitos através de uma pequena Super 8, seus primeiros filmes são registros de momentos de sua vida cotidiana na pequena cidade de Nara. Sua câmera é curiosa, inquieta, busca ver por dentro da própria imagem. A montagem é descontínua, deixando forte presença da autora.

Minhas obras, meus filmes, talvez fujam um pouco das formas mais padronizadas de cinema, mas acredito que existem outros realizadores que estão continuando também a fazer essa arte mais “humana”. Acredito, talvez, que posso de alguma forma estar dialogando com esse tipo de pessoa. De qualquer forma, não penso muito sobre movimentos cinematográficos. Na realidade, acho que se olhar para os meus passos, estarei tendo, isso sim, uma conexão com a natureza e o mundo antes de tudo. (Naomi Kawase, em entrevista para e Revista Cinética)

Além da poesia presente no fato de serem apresentadas sensações além do que foi filmado, há também a intenção de tatear, como em Caracol (Katatsumori, 1994), filme que contempla com afeto o cotidiano de sua tia-avó, Uno Kawase, na pequena cidade de Nara, e que seria o primeiro filme da chamada “trilogia da avó”. Na cena em que tateia o rosto de Uno depois de observá-la de longe pela janela, o ato de fazer do tato um gesto primordial traz o conceito da “câmera-pele”. É exteriorizada a necessidade de tocar alguém que se ama, e é através do tato que é sustentada a materialidade do que se perderia com a morte de sua tia-avó.

No segundo filme da trilogia, Viu o Céu? (Ten, Mitake, 1995), Kawase alterna o som com a imagem, trazendo uma experiência sensorial diferente da protagonizada em seus filmes anteriores, no qual o off e a fala de Uno conduzem a narrativa. O som de uma secretária eletrônica acompanha as imagens de sua tia-avó queimando papéis, em preto e branco e em câmera lenta. Ao acabar essa cena, Uno aparece cuidando de seu pomar, já em cores. Na sequência, Kawase divide as cenas em frames, constituindo um quadro a quadro com fotografias estáticas da tia-avó no jardim. No final do filme, que não dura mais do que 10 minutos, Uno é enquadrada apontando para o céu anoitecido, quando Naomi aparece e pula por cima da tia-avó. Ambas aparecem à vontade em frente à câmera e em contato com a natureza.

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Naomi e sua avó, em Viu o céu?, 1995.

O terceiro e último filme da trilogia, Sol Poente (Hi wa katabui, 1996) é um média-metragem mais leve e despretensioso, no formato de “filme-diário”. Os offs são desabafos, comentários e inquietações. Os elementos da natureza seguem sendo o que move os filmes de Kawase: a câmera mostra o pomar da tia-avó e a chuva. Uno, já mais familiarizada com as filmagens, ri, brinca com a câmera. No entanto, há uma quebra na descontração quando a tia-avó a confronta, perguntando por que a relação com o avô é tão melhor que a que tem com ela. Mesmo nesse momento de tensão, a câmera segue ligada, acompanhando todo o processo de desentendimento entre as duas. No entanto, este filme é o primeiro filme em que o tio-avô é mencionado, como se até então inexistisse.

Essas características do poético e do contemplativo, presentes nos três filmes, já não eram novidade na época em que foram feitos, e muito menos hoje em dia, quando há cada vez mais diretores mostrando os mais diversos olhares sobre o mundo. O diferencial dos filmes de Kawase está na fidelidade com a ideia de registro e da sensação de parecer que ela se prende no cordão umbilical que não pôde desfrutar na inexistência da relação com a mãe. O carinho está presente na câmera que cola em sua tia-avó como que num esforço para tocá-la. Não somente a câmera se aproxima, ela caminha, vai até os personagens sem se preocupar que sua presença seja notada ou não. Nesse processo, portanto, a câmera treme, o foco está constantemente em ajuste, a câmera vai de encontro com objetos.

Eu não comecei a produzir filmes em homenagem a algum diretor ou algum filme. Os homens são únicos desde o nascimento. Por conta disso, às vezes sentem solidão no coração. Porém, na realidade, todos nós temos a experiência de ligação com alguém (ao menos a própria mãe). No final, as vidas são ligadas, conectadas. No início da minha carreira, eu produzia filmes para matar essa solidão… era isso. Agora, estou produzindo os filmes para retratar a beleza da ligação e conexão das vidas. (Idem)

O som nesses filmes aparece quase sempre em off, acompanhado por imagens do cotidiano de Uno em seu jardim, da natureza como ponto de equilíbrio e lugar de encontro. Sol Poente fecha a trilogia fecha desse ciclo da vida de Naomi, expondo que além de registrar imagens como memórias de boas lembranças, o cinema também é lugar de dor. A combinação de som e imagens não resulta em uma imagem dialética nem mesmo obrigatoriamente gera uma interpretação, mas sim retrata as buscas de uma mulher jovem que deseja conhecer sua própria origem, tentando completar a si mesma.

Os filmes de Kawase apresentam imagens que não têm a pretensão de ser simbólicas. O sentido aparece delas e permanece em suspensão, convocando à exploração da memória da cineasta. As sutilezas mais amplas ainda não percebidas são levadas em conta mais do que o próprio sentido. O ato de filmar é quase penetrar no que vê, seja algo como seus primeiros registros documentais, seja a pele de sua tia-avó. Em sua relação com a imagem, o afeto vem da imagem crua através do toque, do contato íntimo entre aparato e objeto.

O ESPERADO MERGULHO: QUE HORAS ELA VOLTA?

O novo filme de Anna Muylaert chegou finalmente aos cinemas brasileiros depois de uma temporada de enorme sucesso em diversos festivais pelo mundo, ganhando prêmios em Sundance para as atrizes Regina Casé e Camila Márdila, e também o prêmio do público em Berlim, onde o filme foi ovacionado em sua sessão de abertura.

Acompanhamos a história de Val, que trabalha como empregada doméstica na casa de uma família rica no Morumbi, em São Paulo. Interpretada magnificamente por Regina Casé, Val saiu de Pernambuco em busca de emprego e lá deixou sua filha Jéssica, que não vê há 10 anos, mas que sustenta mandando dinheiro regularmente. Um belo dia Jéssica liga para a mãe dizendo que se inscreveu no vestibular da USP, e pede para ficar com ela por um tempo para fazer a prova. Mas se surpreende ao chegar e descobrir que Val mora com os patrões – no quartinho dos fundos. Não disposta a se submeter ao tratamento subalterno que dispensam a Val, Jéssica consegue se instalar no quarto de hóspedes, apoiada pelo patrão Zé Carlos, que já coloca logo um olho na menina (eca!). A patroa, Bárbara, aceita a menina por educação, mas logo fica incomodada. Val, que se acostumou a uma vida inteira abaixando a cabeça para os outros, fica doida com o comportamento destemido da filha, temendo inclusive perder o emprego de anos a fio.

O filme começa mostrando como é a relação de Val com Fabinho, o filho dos patrões. O tema do filme é claramente a ausência materna. O título evidencia essa questão logo na primeira cena, em que o pequeno Fabinho, sendo cuidado por Val, pergunta por sua mãe que saiu para trabalhar: “que horas ela volta?”. (Simplesmente amo quando o título do filme sai da boca dos personagens, e essa primeira cena é fantástica). Ao mesmo tempo, Val deixou sua própria filha em Pernambuco se perguntando o mesmo, enquanto foi ser uma “segunda mãe” para o filho dos patrões. Engraçado que o título em inglês “The Second Mother” evidencia esse lado afetivo entre Val e Fabinho, ao contrário do título original mais crítico.

E a grande força do filme é claramente Regina Casé. Ela interpreta Val com uma vitalidade e carisma incríveis, engraçada e bem humorada. É quase impossível não se apaixonar pela personagem e suas peculiaridades. E achei o sotaque pernambucano dela muito bom, não é todo ator que consegue fazer sotaques com maestria. Me surpreendeu inclusive porque todos sabem o quanto Regina Casé é carioquíssima. Por outro lado, Jéssica, interpretada também excelentemente por Camila Márdila (e também com um sotaque muito bom, visto que ela é de Brasília) faz uma personagem bem mais sóbria e madura, que constrasta com todos naquela casa. Quando Jéssica chega, todos tentam manter as aparências e recebê-la bem, porém Fabinho solta um “ela fala igual à Val”, como se elas fossem de outro planeta (momento super afiado e certeiro do roteiro, por sinal). Provavelmente o menino “não fez por mal”, mas essa fala evidencia claramente como ele foi educado a pensar.

Fabinho, aliás, é o típico garoto mimado de classe média alta. Na verdade, a família dos patrões é toda meio baseada em estereótipos, que são mesmo difíceis de fugir numa história como essa. Principalmente porque são personagens bem reais, e que precisam ser criticados. No entanto, me incomoda um pouco a falta de “personalização” deles, porque aí se lida mais com arquétipos do que com personagens tridimensionais. Por exemplo, a patroa Bárbara é a típica madame rica, fútil, que só anda bem vestida e maquiada, e só faz dar ordem aos empregados, além de brigar com eles. Essa personagem já apareceu inúmeras vezes no cinema para ser criticada, me lembro bastante de Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada, até àquele filme O Diário de Uma Babá, onde Scarlett Johanson faz a babá do filho da Laura Linney. Todas essas mulheres são madames fúteis, um tanto malvadas, e que no fundo tem uma vida infeliz, os maridos querem deixá-las, tudo não passa de uma vida de aparências, e ainda por cima nem os filhos gostam delas, pois foram criados por babás. Aqui neste filme temos novamente um pouco de tudo isso, inclusive na cena em que Bárbara chama Fabinho e o acusa de não ligar para ela, mesmo ela tendo sofrido um acidente. A cena parece feita para julgarmos Bárbara, por estar fazendo drama, querendo atenção, ou ainda para inferirmos que isso é tudo culpa dela mesma por ter criado o filho assim, sem se importar com ninguém. Ao se criar uma personagem dessa forma, acho que até diminuem as chances de se criticar os sistemas de opressão como sistemas em si, pois se coloca toda a culpa nos indivíduos, nos vilões do filme. E se Val tivesse uma patroa boazinha, a vida estaria mais fácil para ela e outras milhões de domésticas? É muito fácil detestar Bárbara pelo jeito que a personagem foi construída, e perder de vista que essa é uma relação sistêmica generalizada no Brasil.  Um filme que mostra isso por um viés interessante, por exemplo, é o filme de Juliana Rojas de 2011, Trabalhar Cansa. Nele a patroa não é madame fútil, porém mantém o mesmo tipo de serviço que Bárbara tem com Val, tendo uma empregada que dorme em casa e tudo. E a relação é acidamente criticada no filme.

O patrão Zé Carlos acaba entrando também num certo clichê do marido ausente que já não tem atração pela própria esposa e vai atrás de uma mulher mais jovem (toda vez que ele chegava perto de Jéssica eu me arrepiava na cadeira do cinema, cruzes!). Porém, a ele o filme concede uma personalidade um pouco mais particular, até porque mostra um pouco mais o que ele faz da vida, pinta quadros, é meio vagabundo aparentemente (mas diz que é herdeiro), e é bastante, bastaaaante maluco, como uma cena desconcertante na cozinha mostra depois. O filho Fabinho, porém, não é muito desenvolvido (até porque nem precisa ser). Ele serve mais como um modelo de comparação para Jéssica. Um teve tudo do bom e do melhor, foi mimado e até hoje não possui muita maturidade. A outra, certamente nunca teve nada fácil, tampouco a mãe ali para apoiá-la. Já Fabinho teve duas mães a seu dispor, a dele e a de Jéssica.

E é justamente Jéssica que traz frescor ao filme, tanto pela atuação certeira, como pela personagem ser uma força desestabilizadora na estória. Até mesmo Val poderia cair numa caricatura, caso tivesse outra atriz menos talentosa no papel, pois nada na história dela foge tanto assim aos arquétipos desse tipo de personagem. Mas Jéssica, essa sim é a personagem chave do filme, contesta tudo o que vê, se recusa a participar do jogo de poderes, e ainda assim não é uma menina prepotente, como Val acusa, mas sim alguém que não aceitou o lugar inferior na vida que reservaram para ela. Anna Muylaert diz que a princípio o roteiro terminava com Jéssica seguindo inevitavelmente os passos de Val, mas esse destino a incomodava demais, e, depois de várias reescritas, encontrou a solução: Jéssica já chega contestadora, disposta a mudar e quebrar o ciclo, apresentando um choque de gerações (e de contextos políticos, pois Anna começou a ter a ideia do filme 20 anos atrás, e hoje o cenário do país já é felizmente outro).

Jéssica fica na casa dos patrões apenas uns dias, mas às vezes parecia que foram meses, devido ao modo contemplativo com que Anna Muylaert filma. Por um lado, eu amo demais os planos em que os personagens agem fora de quadro, ou quando a ação se passa em outro cômodo, e podemos ver apenas parte dela através da porta. Simplesmente sensacionais esses planos, em que o som continua contando mais do que apenas a imagem enquadrada. Por fim, a cena da piscina é extremamente emocionante, embalada por uma bela trilha sonora. Por mim o filme poderia ter acabado ali mesmo, no ápice. É legal ver mais sobre mãe e filha logo após, e o epílogo acaba sendo muito importante. Porém, aquela cena ali resume a força do filme inteiro, é de uma intensidade incrível. O roteiro de Anna funciona também pelas pistas e recompensas bem amarradinhas. É um roteiro muito bom, aliás, dá pra ver que algumas cenas foram muito bem pensadas. É maravilhoso mergulhar com Val num filme tão bem feito sobre mulheres, feito por uma diretora mulher, e que esteja fazendo tanto sucesso, inclusive internacionalmente.

E é muito triste ver também que Anna Muylaert vem sofrendo muita retaliação pelo sucesso do filme. Ela tem se queixado bastante do tratamento que vem recebendo, até chegar inclusive a um evento lamentável numa recente exibição em Recife, onde dois cineastas locais a interromperam várias vezes no debate e proferiram ofensas machistas. Em uma entrevista ao IndieWire, Anna disse que se for fazer um próximo filme, será sobre machismo, porque chegou a um nível intolerável. E é realmente intolerável que uma cineasta mulher não possa fazer um filme de sucesso em paz, em pleno 2015. Agradeço imensamente à Anna por estar brilhando e abrindo portas para futuras cineastas como nós, e provando que mulheres podem sim fazer filmes sobre mulheres, e ainda fazer muito sucesso!

AMOR AO CINEMA E RECONCILIAÇÃO FAMILIAR: O ÚLTIMO CINE DRIVE IN

O primeiro longa-metragem de Iberê Carvalho foi exibido em sua pré-estreia no próprio cine drive-in do título do filme, o que deve ter sido uma experiência metalinguística incrível. Perdi esse momento, mas assisti no Cine Brasília, outro patrimônio da capital. E é muito bom ver filmes da cidade ganhando espaço e reconhecimento nacionais.

O filme conta a história de Marlombrando, que volta de Anápolis para Brasília, para internar sua mãe doente. Sem ter onde ficar, acaba indo atrás do pai ausente, Almeida, dono do quase falido (e real) cinema drive-in da cidade. Almeida é um apaixonado por cinema, como o nome do filho e os muitos pôsteres de filmes na parede evidenciam. Porém, Marlombrando não tem muitos afetos por Almeida, inclusive o chama pelo nome em vez de “pai”. Fugindo do melodrama ao qual a narrativa parece se direcionar, os conflitos nunca ficam totalmente explícitos, nunca sabemos exatamente os fatos que aconteceram no passado dos dois, o que é uma decisão acertada. Ficamos sabendo apenas de alguns detalhes mostrados através dos diálogos.

A mãe doente, Fátima, está internada com um tumor no cérebro, e infelizmente não tem participação maior além de servir como mote para a ação do protagonista. As poucas cenas em que ela aparece são momentos entre ela e o filho, onde ela conta histórias nostálgicas sobre a infância dele. Sim, há vídeos de infância em sépia, que Almeida fica assistindo em seu projetor, há historias contadas pela mãe para adocicar o coração dos espectadores, há um certo esforço de trazer uma atmosfera afetiva e nostalgica, no estilo Cinema Paradiso, que aliás fica mais do que evidente pelo pôster do filme que aparece em close atrás dos personagens em algumas cenas. Aliás, talvez os pôsteres de Cinema Paradiso e de O Poderoso Chefão na parede de Almeida tenham ficado um pouco redundantes. Apesar de fazerem sentido dentro da estória, as referências a eles já estão mais do que claras no filme. Esses elementos mais clichês, porém, são balanceados pela montagem um tanto seca, que em certas horas agrega ao filme, mas outras horas nem tanto.

Quanto à estória, ela possui um potencial de dramalhão do qual o filme felizmente foge: reconciliação de pai e filho, doença terminal, ressureição do cine drive-in. Porém, talvez o filme tenha fugido tanto em busca de amenizar os clichês da narrativa, que algumas coisas tenham ficado secas demais. A história tem pano pra manga, mas, mesmo com a duração já sendo bem pequena – 98 minutos – o filme tem várias cenas em que nada acontece, como quando Marlombrando volta para Anápolis, só para retornar logo em seguida. Há muitas escolhas estranhas de montagem também, como alguns planos de Fátima moribunda no hospital, que não casam com as sequências anteriores nem seguintes, parecem planos jogados ali no meio sem saber direito a que vieram. Marlombrando também parece um personagem meio inócuo, que não evolui muito ao longo do filme, mesmo sua estória tendo um arco claro no roteiro. Não sei se isso se deve à atuação de Breno Nina ou a escolhas de direção, mas o protagonista permanece emburrado durante o filme inteiro, e brilha somente em alguns momentos pontuais, como na briga com o pai dentro do carro. Já Othon Bastos como Almeida, e Chico Santana como Zé (o bilheteiro do cine drive-in) estão excelentes, atuam com uma naturalidade incrível. Há grande potencial para o público empatizar com Almeida, sendo o cara excêntrico que é, em busca de reconciliação com o filho, e a atuação de Othon Bastos lhe confere muita humanidade. Porém, ele também termina o filme passando uma sensação de que poderia ter ido mais além, faz falta alguma cena em que possamos ver mais de suas emoções. Não que uma cena de reconciliação entre pai e filho fosse necessária, acho até que iria cair nos velhos clichês de sempre, mas algumas cenas a mais em que pudéssemos entrar mais fundo nos sentimentos de Almeida e Marlombrando seriam bem-vindas.

Uma personagem interessante do filme é Paula, interpretada por Fernanda Rocha. Ela é uma espécie de faz-tudo no drive-in, dando conta desde a projeção dos filmes até os lanches servidos, e tem uma personalidade forte, responde as pessoas na lata e não mede palavras. Porém, o tratamento dado a ela me incomodou várias vezes. Quando Marlombrando chega e não aceita dormir no quarto do pai, Almeida expulsa Paula de seu próprio quarto para dar lugar a ele. Ao longo do filme vemos repetidamente Almeida e Marlombrando destratarem Paula, como quando ela dá opinião sobre a situação que Marlombrando causou depois de chegar, e é recebida com um ríspido “da minha família cuido eu!” vindo de Almeida. Marlombrando desdenha de Paula várias vezes também, inclusive na cena ápice do desrespeito, quando encontra Paula numa rua, indo embora, e a impede de prosseguir. Ele a puxa pelo braço, grita com ela, e apela para o plano deles de reviver o cine drive-in, como se a vontade dela de ir embora não passasse de birra, e ainda por cima fosse alguma forma de traição por abandonar o plano. Paula finalmente cede e resolve voltar, e mais tarde é recebida por Almeida com um “você ia embora sem me dizer, sua pilantra?” de brincadeira, ao que ela responde “se me maltratarem vou embora”. Claro que isso é tratado como um momento engraçadinho pelo filme, pois acabamos de ver que Paula não vai embora coisa nenhuma, então a ameaça dela não é realmente levada a sério por ninguém, nem por eles nem pelo público. A intenção do filme é romantizar essas relações hostis “de família”, de destrato com viés cômico, que entretanto acontecem assimetricamente, tendo como Paula o saco de pancada do filme. Uma coisa legal é que ela está grávida, e isso é tratado com naturalidade, sem ninguém chamando atenção para isso todo o tempo, salvo uma hora em que Marlombrando pergunta a Zé se o filho dela é de Almeida (a coitada não é respeitada hora nenhuma e ainda acham que ela está dormindo com o velho!).

A cena final é legal – alguns spoilers a seguir! – onde sequestram a mãe do hospital para que ela possa ver a renovação do cine drive-in. Porém, também é montada de um jeito um tanto estranho. A trilha sonora indica que a cena deve ser engraçada, mas ela é extremamente longa, sem ritmo, e com pouca tensão. Já o momento em que eles chegam no drive-in e abrem a porta da ambulância para Fátima (melhor parte do filme), é rápido demais, e logo termina, encerrando o filme. É verdade que ao se demorar demais nesse final, a cena poderia ficar um tanto melosa. Mas isso é algo que vem da própria narrativa, e principalmente da trilha sonora, que não é lá muito boa.

No geral, O Último Cine Drive-in é um bom filme, com duas ótimas atuações, e com uma narrativa clichê, mas que acerta em muitos pontos por não cair no dramalhão. Só peço aos cineastas que comecem a pensar melhor no tratamento dado a suas personagens femininas, e como seus filmes se posicionam a respeito disso.

AOS QUE SE ATREVEM A DIZER SIM: QUE HORAS ELA VOLTA?

Da porta da cozinha, a sala de jantar não é mais que uma fresta. Ouvimos atentamente os sons que vêm de lá, esperando escutar uma ordem ou pedaços de uma conversa para a qual não fomos convidados. Os desavisados podem até pensar que o filme de Anna Muylaert é emoldurado por uma cozinha, por portas entrefechadas e janelas que dão pro lado de dentro, ignorando que na verdade a nossa protagonista está ali no que nós achávamos que era moldura. Ela mesma se confunde, achando que é parte do plano de fundo, sem perceber que estamos ali para conhecer a história dela.

Val (Regina Casé) é assim mesmo, uma figura cheia de luz própria e carisma que acha que nasceu para viver às sombras, que conhece o “seu devido lugar” e que entende que quando a patroa (Karia Teles) diz que ela é “como se fosse da família”, assim como quando um sorvete caro é oferecido pelos donos da casa, essa é uma honra que eles oferecem sem esperar que ela aceite.

Até que, um dia, ela aceita. O constrangimento é palpável, expondo, aos poucos, uma relação delicada que começa a ruir a partir do momento em que se aceita algo que só foi oferecido por educação. Val não o faz por si mesma, e sim pela filha, que não vê há dez anos. O que não se espera é que Jéssica (Camila Márdila), articulada e inteligente, compreenda logo de cara as relações de poder da casa e exponha a hipocrisia da situação.

A diferença de tratamento que Val dá para a própria filha e Fabinho (Michel Joelsas) é tão clara quanto o enorme abismo na maturidade dos dois. Seu Carlos (Lourenço Mutarelli), um homem melancólico e calado, não perde tempo em assegurá-la que o dinheiro de verdade é dele, como se isso o tornasse mais másculo e atraente pra adolescente que acabou de chegar na sua casa. Dona Bárbara é um ideal feminista para muitos. Uma mulher poderosa, dona do seu próprio negócio, que alcança o lugar que os homens sempre ocuparam na sociedade. Um feminismo branco, elitista e superficial em que se procura ocupar um lugar mais elevado em uma estrutura opressora, sem nenhuma intenção de desmantelá-la. Quando confrontado com questões mais profundas, entretanto, se revolta. Como se atreve, essa menina, nordestina, querer passar em uma das melhoras faculdades do país? Como se atreve, a filha da empregada, querer um lugar ao sol?

Que Horas Ela Volta? é um filme sobre muitas coisas. É sobre mães que deixam filhos para dar um futuro para eles que, por sua vez, deixam seus filhos para dar um futuro para eles. É um filme sobre o fim de uma maldição de família. É um filme sobre relações de gênero, sobre relações de classe. É um filme sobre pessoas que tentam resguardar seus privilégios, e também sobre as que desafiam o status quo. É um filme sobre um país que está mudando, reconhecendo padrões de comportamento e dizendo “eu mereço mais do que isso”.

DO QUE SOMOS FEITOS: O AMADURECIMENTO EM DIVERTIDA MENTE

A Pixar é conhecida tanto pela inconfundível qualidade técnica de suas animações quanto por unir a essa qualidade roteiros sensíveis e inteligentes, que resultaram em grandes obras da animação, como “Toy Story” (1995), “Procurando Nemo” (2003), “Up – Altas Aventuras” (2009) e “Wall-E” (2008), só para falar nos meus favoritos.

Infelizmente, até mesmo a Pixar seguiu a tendência atual do cinemão americano de investir grande parte de seus recursos em sequências e prequels (ou prequelas), em troca de segurança nos retornos de bilheteria e da manutenção de seu paralelo mercado de brinquedos e roupas baseados nos filmes. Tal prática faz sentido para grandes executivos do cinema e para crianças, que gostam de (e são incentivados a) se alimentar repetidamente dos filmes pelos quais sentem carinho. A proliferação das continuações, remakes e prequelas, no entanto, inunda as salas de cinema de mais do mesmo e faz mais pelo bolso dos estúdios que pela continuidade dos avanços artísticos da área.

Dessa forma, a Pixar fez alguns filmes menos ousados nos últimos anos, como a sequência “Carros 2” e “Universidade Monstros”, prequela de “Monstros S.A”, logo após a última continuação de “Toy Story”.

Bom, articulei toda essa reflexão para dizer quão positiva foi minha surpresa ao assistir “Divertida Mente” (2015), um filme que traz frescor à narrativa de animação americana, com a simples e bem elaborada fantasia sobre como funciona a mente de uma criança.

Acompanhamos o crescimento de Riley, uma menina de 11 anos, enquanto conhece e aprende a lidar com os próprios sentimentos. No filme, eles são resumidos e personificados em cinco identidades: Alegria (a primeira a surgir, e líder entre os outros), Tristeza (constantemente deixada de escanteio pela primeira), Nojinho, Medo e Raiva. A princípio a vida de Riley é cheia de Alegria, rodeada pelo amor dos pais, dos amigos e motivada pelo esporte que ama. Tudo se desestabiliza quando, por problemas financeiros, a família se muda para São Francisco, uma cidade completamente oposta a Minnesota, que eles deixam para trás.

Riley: o amadurecimento ganha contornos lúdicos dentro da mente da personagem.

Riley: o amadurecimento ganha contornos lúdicos dentro da mente da personagem.

A beleza da computação gráfica e a concepção artística do filme saltam aos olhos. As duas instâncias narrativas, o mundo dentro da mente de Riley e o próprio mundo da garota, se cruzam referenciando o cinema. Através de uma grande tela, os Sentimentos assistem ao mundo de Riley. Quando ativam as lembranças, elas se projetam na tela. O mundo dos sonhos, na história, é como uma produtora de cinema, “filmando” ideias misturadas baseadas em um roteiro do que Riley tem pensado e vivido.

De certa forma, o filme tem uma leitura desencanada e sem muita responsabilidade da teoria freudiana, como exemplo, quando o palhaço que vive no inconsciente resolve invadir o mundo dos sonhos. As explicações mais simples sobre porque as coisas são como são em nossa mente divertem e nos fazem entrar na brincadeira do filme – é impressionante o número de teorizações e divagações na internet sobre quais seriam os Sentimentos líderes, as Ilhas de Personalidade e memórias-base de cada pessoa, mostrando que o universo interno do filme é forte e coerente. E incrivelmente lúdico: é impossível não se deliciar com a fábrica de abstrações e a redução das personagens a formas simples.

Entre outras teorias: seria Riley (que tem um nome bigênero) uma personagem não binária ou gender fluid, porque seus Sentimentos tem gêneros mistos, em oposição aos Sentimentos de outros personagens do filme? Eu tendo a acreditar que mistura de personificações sentimentais de Riley se deve mais à diversificação das personagens do filme  que a uma representação assumida de personagem de gênero indefinido. Mas a maneira como essa possibilidade mexe com os sentimentos e a fantasia de crianças e jovens deveria dizer algo à indústria. Representação importa, experiências importam.

Riley, aliás, é um encanto à parte: se para a criançada estar em sua mente deve ser divertido, para o público mais maduro é um deleite. Suas dúvidas, medos, anseios e confusão são facilmente reconhecíveis e tornam sua simples jornada muito comovente. As metáforas são certeiras: aos 11 anos, ou quando estamos crescendo, não sabemos lidar com a tristeza, começamos a perder nossos amigos imaginários, nossas velhas brincadeiras não tem mais graça, e alguns de nossos laços se rompem.

A cada Ilha de Personalidade que desaba, a menina trilha um passo no doloroso caminho de crescer e se reinventar. No final, era apenas necessário. Tendo crescido sempre com Alegria, protegida pelo conforto de sua vida, Riley precisava conhecer a Tristeza para amadurecer e aceitar mudanças externas e internas. Como não se identificar com essa pequena heroína?

SOBRE MULHERES QUE USAM XADORES COMO CAPAS: A GIRL WALKS HOME ALONE AT NIGHT

Uma garota volta sozinha pra casa à noite. O título do filme associado ao gênero terror pode gerar uma série de imagens perturbadoras nas mentes das possíveis espectadoras do filme. Passos em meio ao silêncio da rua, seus próprios passos mais apressados, os dentes da chave deixando marcas fundas na palma da mão que você não pode evitar apertar, o abrir apressado da porta do carro e o suspiro de alívio que se deixa escapar enquanto você acelera, sem nem colocar o cinto, a possibilidade de uma batida de carro parecendo quase risível quando comparado ao som daqueles passos atrás de você.

A Girl Walks Home Alone at Night é, por vezes, esse suspiro de alívio quando se percebe que está segura.

A diretora e roteirista do filme, Ana Lily Amirpour, o categoriza como “Iranian Vampire Western Spaghetti”, um faroeste spaghetti iraniano sobre vampiros. O subgênero spaghetti do western é como ficaram conhecidos os faroestes de baixo orçamento feito por diretores italianos nos Estados Unidos. Uma das grandes características dos filmes do western spaghetti é o “Herói sem nome”, um homem de poucas palavras cuja moral ambígua lhe dá o status de anti-herói.

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Sheila Vand como A Garota.

O filme subverte tanto a imagem mental criada pelo título quanto o gênero dado pela própria diretora quando descobrimos que em vez de um herói sem nome, temos uma heroína, interpretada por Sheila Vand, e o fato de ela andar sozinha à noite diz mais sobre falta de segurança dos outros do que dela própria, uma vampira justiceira. Nossa anti-heroína desliza pela cidade num skate roubado, com seu xador – veste feminina iraniana – esvoaçando atrás dela como uma capa ou as asas de um vampiro e utiliza métodos nada ortodoxos ao zelar pela segurança de pessoas na cidade, como drenar o sangue de um cafetão e intimidar um garoto a ser um “bom menino” caso não queira ser brutalmente assassinado por ela.

Além dessas reviravoltas bem vindas, o filme surpreende, entre outros aspectos, pela fotografia – o uso do preto e branco é um recurso narrativo bem sucedido e cujo efeito em algumas cenas é de uma beleza notável, com focos de luz isolados criando uma atmosfera misteriosa e sombria – e pela trilha sonora, essencial para a criação do ritmo do filme. Em algum nível, a protagonista soturna comunica mais através das músicas do que por palavras, o que é um dos motivos pelos quais o romance entre ela e o outro protagonista do filme, interpretado por Arash Marandi, funciona tão bem.

Ao longo do filme, não podemos deixar de notar elementos e influências da cultura pop ocidental, o que faz sentido, afinal a diretora, nascida na Inglaterra, criada nos Estados Unidos e filha de persa, realizou o filme na Califórnia. Em entrevista para o jornal britânico The Guardian, ela admite que, embora ela veja o filme como um conto de fadas iraniano, ela ainda é “muito americana” e, apesar da maioria das músicas do filme serem em pársi, é justamente em uma das cenas mais delicadas do filme, quando ainda não sabemos se a protagonista deseja matar ou seduzir Arash, que nós somos levados ao universo pop mais familiar aos espectadores ocidentais com a música Death da banda inglesa White Lies.

Ao ver o filme e ler a entrevista de Amirpour, não posso evitar o fascínio que eu sinto pelas circunstâncias que o tornaram possíveis, um mundo em que uma diretora, tanto americana quanto iraniana, odeia falta de liberdade, mas ama a cultura do país de origem dos seus pais, explora influências ocidentais e orientais e cria histórias sobre mulheres que usam xadores como capas e superpoderes para defender prostitutas.

A LIBERDADE DE FAZER UMA TRILHA EM SUA PRÓPRIA COMPANHIA: LIVRE

“Livre” é uma adaptação do livro de Cheryl Strayed sobre sua jornada pessoal por uma longa trilha pela costa oeste dos Estados Unidos, em busca de refletir e se livrar do peso de suas difíceis experiências do passado. Não li o livro, portanto não tenho como fazer uma comparação entre o original e o filme. Adaptações (e principalmente biografias) são delicadas pelo fato de submeter o material original à visão de uma outra pessoa (o diretor). No filme estamos sempre vendo as observações de uma pessoa sobre a história de outra, e invariavelmente o que chega até nós é uma mistura de ambos. Tanto o diretor está preso a uma certa correspondência com o material original (do contrário teria que ser uma história “baseada” e não “adaptada”) quanto a história transposta na tela está atada à visão do diretor. 

A boa surpresa é que, apesar de tudo, “Livre” passa a sensação de que a própria Cheryl é quem está contando sua história. O filme usa narração offscreen e muitos flashbacks. Sempre tenho ressalva com o último, dá a impressão de que vai trazer uma atmosfera brega para o filme. Mas aqui o recurso é muito bem empregado. Na abertura do filme acompanhamos Cheryl no começo da trilha, no deserto, passando dificuldades, e ficamos intrigados sobre a motivação que a levou a fazer a tal trilha. Logo de início sabemos que é para curar algumas feridas internas, e à princípio o filme parece mais um do tipo “Comer, Rezar, Amar”, principalmente quando descobrimos que tem um divórcio envolvido. Fico com pé atrás de sempre ver histórias desse tipo, mulheres que procuram uma aventura para curar feridas emocionais, enquanto homens o fazem por hobby, pela simples diversão. É como se mulheres precisassem de um motivo a mais, profundo e pessoal, para se jogar em tais aventuras, porque não o fariam em uma situação normal. Já sabemos que existem mulheres que gostam dessas atividades pelo simples prazer de realiza-las, suas histórias só não ganharam a visibilidade necessária ainda. Apesar de não ser uma dessas, a história de Cheryl, nos anos 90, é transposta para a tela com sinceridade, e acreditamos que tudo pelo que ela passou foi real e provável de acontecer. Apesar de reforçar alguns padrões narrativos que só afetam mulheres, a história parece trazer um fiel testemunho da realidade. 

Nas primeiras cenas já sabemos que é a primeira experiência do tipo para Cheryl. Ela tem dificuldades de levantar a pesada mochila, leva alguns equipamentos errados e tem alguns contratempos até aprender a melhor maneira de se virar. Felizmente ela também encontra bastante ajuda no caminho. E, invariavelmente, se sente ameaçada em várias outras ocasiões. Há, claro, umas duas ou três ameaças de estupro, e ela mesma se pergunta como teve coragem de sair sozinha numa trilha inóspita, pedindo carona a estranhos. Como ousou fazer tudo isso sendo mulher. Há também uma cena em que ela encontra alguns rapazes na trilha que a elogiam por sua bravura em chegar tão longe, quando muitos outros já tinham desistido no meio do caminho. Eles resolvem dar um apelido a ela, “Rainha da PCT” (PCT é o nome da trilha – Pacific Crest Trail), porque ela foi capaz de conseguir muita ajuda de estranhos. Os rapazes reclamam que as pessoas não foram tão solícitas com eles no caminho, e portanto ela era privilegiada como uma rainha por conseguir tanta ajuda. Há aí o tal do sexismo benevolente (mais sobre isso aqui aqui), ignorando o fato de que muitos dos ajudantes cobravam uma saída com ela em troca de ajuda, além dos constantes comentários sobre sua aparência. “Linda”, “doçura”, e coisas do tipo. Às vezes é incômodo ver Cheryl não reagir a alguns desses episódios, mas por outro lado isso traz uma incrível sensação de realidade (infelizmente acho que também não vai trazer muita reflexão aos espectadores). É chocante relembrar através dessa história que as mulheres ainda não podem ter a liberdade de sair por aí sozinhas, se aventurando “no meio da floresta” como um dos caras diz literalmente, sem temer mil ameaças à sua integridade física. Claro, homens também temem serem assaltados ou assassinados, mas estupro não é o primeiro temor da lista. Claro, roubo e assassinato também são bem prováveis de acontecer com mulheres, principalmente pelo fato de serem consideradas mais fracas e mais suscetíveis a violência. Também não sei em que medida o diretor enfatizou demais esse aspecto do assédio sexual na jornada da protagonista, já que é um recurso narrativo usado à exaustão no cinema e na literatura. Pelo menos nesse filme isso não é usado como ponto de partida para um crescimento espiritual ou libertação de Cheryl (ou como conflito dramático para avançar a estória). 

Enfim, voltando a falar dos flashbacks, eles complementam muito bem a história da protagonista, revelando aos poucos o que aconteceu em seu passado e nos dando informação sobre sua personalidade. Vi alguns críticos falando que eles prejudicam o ritmo do filme, mas eu discordo. Eles são inseridos organicamente na trama, e nos permitem pouco a pouco compreender cada vez mais as motivações de Cheryl e sua razão para ingressar na trilha. Enquanto os problemas amorosos soam um pouco clichê de tanto aparecerem nessas histórias de redenção, o relacionamento com a mãe é vivo e tocante. Laura Dern está cativante no papel da mãe, e uma das cenas mais especiais é uma conversa que ela tem com Cheryl na cozinha, explicando sua atitude alegre em relação à vida e porque insiste em ser feliz apesar de todo o sofrimento por que passou. Uma escolha interessante também foi trazer os flashbacks em um padrão fragmentado, emulando a maneira com que Cheryl resgata suas memórias. 

No fim, apesar de ser uma história tão pessoal, a insistência de Cheryl em percorrer uma trilha tão difícil até o fim traça um paralelo com ato de finalizar aquelas coisas tão difíceis de serem terminadas. Apesar de todo o esforço para sobreviver na trilha, ela tem mais medo é de quando a trilha acabar e ela tiver que finalmente encarar a vida real. Durante a trilha é quando ela tem a oportunidade de ficar sozinha consigo mesma, refletir sobre seus conflitos e traçar um plano para sua vida depois dali. Fico um pouco triste que o final também traga o prospecto de um novo relacionamento romântico. Apesar de ser uma história pessoal (e real), mais uma vez liga a redenção de uma mulher (como em “Comer, Rezar, Amar”) ao fato de encontrar um novo amor. Ainda não existem filmes nem histórias suficientes que balanceem esse destino, trazendo a mensagem (sutil, porém presente) de que a vida de uma mulher gira necessariamente em torno da realização romântica. 

Mas enfim, no final Cheryl conquista o espírito do título em português (o em inglês, Wild, parece um pouco fora de sentido, como explicado nessa crítica). Ela completa mais um passo rumo à liberdade. Além da liberdade simbólica de se livrar do peso do passado, também a liberdade de fazer uma trilha perigosa sozinha. Pela liberdade de que mulheres possam sim, sair desacompanhadas e completar o percurso. Que um dia possamos fazê-lo sem medo de tantas ameaças, o que certamente será possível por causa dos primeiros passos dados por mulheres como Cheryl.

A JUVENTUDE INTERROMPIDA: SONHOS ROUBADOS

“Quero, quero muito, quero agora, sem demora.”

Enquanto acompanhamos Jéssica pedalando pela favela onde vive, no início de “Sonhos Roubados” (2009), a música de Maria Gadú denuncia previamente o que passa pela cabeça e pelos corpos das três jovens protagonistas: desejos e, em suma, sonhos, tão grandes e intensos quanto distantes da realização.

Lançado no mesmo ano que o badalado “As Melhores Coisas do Mundo” (2009), de Laís Bodansky, o longa de Sandra Werneck escolheu outra face da juventude para retratar. Diferente dos jovens ricos do primeiro filme, que se desdobram sobre a sexualidade com leveza, as meninas de “Sonhos Roubados” já conhecem o sexo desde cedo e, na falta de outros espaços de empoderamento, usam a sensualidade e a sexualidade para se afirmar e se sustentar.

Sabrina, Daiane e Jéssica: na falta de presenças femininas adultas, elas são a principal referência umas das outras.

Sabrina, Daiane e Jéssica: na falta de presenças femininas adultas, elas são a principal referência umas das outras.

A pobreza, a fragilidade da estrutura familiar e a falta de perspectivas atingem Jéssica (Nanda Costa), Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz) de diferentes maneiras, todas elas perpassando o desconforto em não ter autonomia, ou poder de decisão real sobre suas vidas. Cada uma delas tenta reagir como pode: Jéssica tenta ser durona e obter poder através de sua sensualidade, mas não tem um bom plano para salvar o avô ou manter a filha; Sabrina, no início a que mais acredita na escola, se vê sabotada pela falta de aulas e logo cai no conto do príncipe encantado, indo morar com um traficante de drogas; e Daiane, a mais nova, faz de tudo para tornar reais seus rituais de passagem para a vida adulta, negando a própria infância, que ela associa com a fragilidade.

Filmado de maneira dinâmica e sem sentimentalismos por Walter Carvalho, o filme acerta nas cenas em que deixa que as personagens falem um pouco sobre como se sentem naquele universo caótico, de maneira quase documental, como quando Jéssica vai ao cemitério ver o túmulo da mãe. É uma pena que tais cenas aconteçam com pouca frequência no filme, dando lugar a outros momentos frágeis dramaticamente, em que frases de efeito e lições de moral preenchem a tela, como quando o avô de Jéssica reflete: “a gente passa pela vida que nem fantasma”. A frase soa como uma ideia exterior ao filme, plantada de fora para dentro, que empurra uma definição fechada sobre o que é a história.

As personagens, em geral, são bem construídas, graças ao bom trabalho do trio principal e de Marieta Severo, como Dolores, a dona do salão de beleza que acolhe Daiane. O longo período em que a narrativa se desenvolve, de mais de um ano, passa pelos rituais de passagem da adolescência para o mundo adulto que são comuns em filmes sobre juventude. Aqui, no entanto, o amadurecimento não chega com a entrada na universidade, com o início de um namoro ou uma oportunidade de intercâmbio, como no simpático filme “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014).

Diferente dos jovens mais privilegiados do “asfalto”, as meninas não tem escola qualidade (quando não faltam professores, há greve), não tem dinheiro e não foram treinadas ou educadas para um trabalho que as tire de dentro da favela. São ignorantes sobre suas opções e acabam escolhendo o que mais parece promissor naquele mundo. Ser objeto do desejo de homens poderosos, poder comprar roupas bonitas, ter um celular, pintar os cabelos e frequentar o baile: eis as formas de empoderamento disponíveis para as jovens.

A rua e seus perigos surgem, na falta da escola e de um lar estruturado, como ambiente de construção de identidade. Nesse aspecto, o filme dialoga com “Garotas” (2015), de Céline Sciamma, ainda que não tenha o mesmo sucesso deste em mostrar como meninas podem se tornar a referência máxima umas das outras, na falta de exemplos de mulheres que possam se destacar por quaisquer meios que não sejam os “das ruas”: formação de gangues, prostituição e venda de drogas e armas.

Daiane é a única que conhece uma mulher adulta em que pode se inspirar (já que sua tia não faz mais que exercer o covarde papel de acobertar o marido pedófilo) e a quem pode pedir ajuda, e não à toa, é quem consegue realmente mudar a situação de sua vida e vislumbrar um novo futuro, como cabeleireira. Jéssica alcança certo amadurecimento quando aceita a realidade: não quer ter o mesmo destino de sua mãe, e se ajusta ao emprego que não desejava, para ter a filha de volta. Sabrina, no entanto, se deixa levar pelo encanto do príncipe encantado e pela sexualidade juvenil nas alturas, que a diretora acerta ao tratar sem julgamentos. No entanto, engravida e enfrenta o que muitas jovens conhecem muito bem: poucos príncipes resistem a uma prova de responsabilidade, e as mães brasileiras sabem bem como é criar um filho sem pai.

Para não deixar passar batido, já que mencionei o filme “Garotas”, surpreendeu-me o fato de que até mesmo um filme com essa temática não tenha, entre três protagonistas, nenhuma personagem assumidamente negra. Digo “assumidamente” pois é clara a tentativa de incorporar traços afro às personagens Daiane e principalmente Jéssica, através de pesado bronzeamento e, no caso de Nanda Costa, uso de aplique de tranças conhecidas como rastafári. A personagem Sabrina incorpora a origem da atriz Kika Farias, com seu sotaque pernambucano, o que não compensa, a meu ver, a não escolha de uma atriz negra em um filme com histórias próximas ao cotidiano das meninas negras nas favelas brasileiras (e se não soubessem disso, não teriam se importado tanto em alterar a aparência das atrizes). Seria medo de colocar uma menina negra e ser justamente taxado de ser mais um filme com uma negra como favelada? Ou seria mais um caso de “as atrizes foram escolhidas pelo talento”, resposta tão utilizada da boca pra fora?

Como disse Tânia Montoro (1): “Interessa-me observar como o(s) significado(s) do filme não se reduz(em) aos elementos que compõem sua linguagem, uma vez que os filmes estão inseridos em outras práticas culturais e revelam experiências em perpassam a cotidianidade. Os filmes, dessa forma, não são eventos culturais autônomos, encontram-se inseridos em outras práticas sociais que conotam um leque de sentidos.” A partir desse entendimento é que defendo que cabe fazer este questionamento a respeito de “Sonhos Roubados”. Não cabe dizer que “é só ficção” quando o filme tem uma proposta clara de retratar uma suposta realidade das jovens brasileiras (usando em algumas cenas linguagem de clara inspiração documental). Não questiono o trabalho das atrizes do filme, certamente bom, na medida do texto que tinham à mão. Mas me pergunto, hoje e sempre: não existem boas atrizes negras no cinema nacional, que poderiam dar cara, com igual ou maior fidelidade, às angústias juvenis presentes na história? Como um filme que conta uma história na favela só tem um ator negro (MV Bill) em seu elenco de destaque, e vários atores brancos? Ficam minhas perguntas.

“Sonhos Roubados” (2009), com direção de Sandra Werneck.

Com Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika Farias, Marieta Severo, Daniel Dantas e MV Bill.

Disponível no Netflix.

(1) Tânia Montoro:”A construção do imaginário feminino no cinema espanhol contemporâneo”. In: De olho na imagem, de Tânia Montoro e Ricardo Caldas. Página 17. 2006.

NUNCA HOUVE UMA GRANDE ARTISTA MULHER

Ou, pelo menos, é o que diz Brian Sewell, ignorando nomes como Georgia O’Keefe, Louise Bourgeois, Frida Kahlo e muitas outras. É verdade que Sewell estava apenas sendo misógino, mas sua fala nos lembra que o lugar da mulher na arte é sempre de resistência e marginalização. Aquele lugar pelo qual elas tiveram que lutar com unhas e dentes. Ainda assim, nunca serão vistas como merecedoras dele – elas nunca serão consideradas “grandes artistas”.

A ideia de dar as costas a esse conceito de “grande” em que só cabem homens me atrai cada vez mais.

Este é um espaço negativo. Por “espaço negativo”, refiro-me ao que está em volta do objeto, o que está vazio, em branco. O espaço positivo já está cheio demais, saturado, por isso procuramos um lugar para nós, mesmo que ele esteja além da margem do que é considerado importante, na esperança que as nossas vozes se juntem a outras e outras e outras… até que, juntas, nos tornemos algo maior.

Estamos cansadas do que é definido como “universal”, do papo que se aproveita de uma suposta neutralidade para transmitir ideias e estéticas que certamente são, também, políticas. Não esperamos que abram-se magicamente portas para nós, vamos nos fazer ouvidas, nossas críticas, nossas obras de arte, nossos filmes, nossas análises estão aqui para ficar. Somos mulheres, realizadoras, escritoras, queremos ocupar espaço, queremos escutar outras vozes e queremos ser ouvidas também, queremos mais cores, mais tamanhos, mais formas de olhar e mais formas de ser, queremos fortalecer e queremos ser fortalecidas.

Enfim, queremos mais do que nos foi dado, mais do que herdamos, mas sem esquecer das nossas raízes e o que nos tornou o que somos hoje. Assim, abrimos nosso Verberenas, um espaço negativo que deseja ser visto.

(o título desse post foi inspirado neste artigo e nessa notícia)


Esse texto foi escrito de forma colaborativa por Glênis e Amanda.