Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras Diálogos de cinema & cultura audiovisual por mulheres realizadoras

Lygia Pereira

Realizadora e colaboradora do Verberenas desde janeiro de 2018.

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QUANTO MAIS PERSONAGENS NEGROS EU CRIAR E ATRIBUIR SUBJETIVIDADE MELHOR: ENTREVISTA COM RENATA MARTINS

Ilustração de Hana Luzia

Encerrando este ciclo de publicações1, compartilhamos com vocês a entrevista “Quanto mais personagens negros eu criar e atribuir subjetividade melhor” com a diretora e roteirista Renata Martins. A última das entrevistadas é a caçula dos quatro filhos de Maria do Rosário Martins e José Elói Martins. Com dois Emmys na carreira, Renata é fundadora da Mahin Produções e idealizadora do projeto “Empoderadas”, além de diretora e roteirista dos premiados filmes Sem Asas (2019) e Aquém das Nuvens (2010). Nossa conversa aconteceu de forma online, em junho de 2020, no início da pandemia da COVID-19. 

Em seu fazer cinematográfico é notável a centralidade da família, não apenas como disparador narrativo, mas também como forma coletiva de expansão espiritual e desenvolvimento emocional. Pensando nas famílias pretas, a construção dessas imagens/discursos é especialmente poderosa, principalmente quando consideramos que a desorganização de núcleos familiares pretos é fruto de políticas racistas atualizadas desde a colonização.

 Quando pensamos em histórias cujos pilares narrativos estão no amor, no respeito e no cuidado familiar, temos poucas referências de famílias pretas na produção audiovisual brasileira. Nos filmes Sem Asas (2019) e Aquém das Nuvens (2010), Renata conta histórias de famílias pretas que vivenciam o afeto, o riso, a dor, a perda, o amor e a superação. Com um cinema fortemente ambientado na periferia paulistana, local onde cresceu e vive até hoje. Renata parte de experiências comuns do dia a dia para criar seus filmes e como resultado produz imagens que atualizam nosso imaginário sobre as vivências negras e periféricas a partir de uma perspectiva radicalmente oposta às imagens hegemônicas.

Assim, partindo da ancestralidade como continuidade do corpo e da vida negra em trânsito, Renata Martins compõe o quadro de cineastas negras contemporâneas que vem estabelecendo novas políticas no campo do imaginário e da nossa sensibilidade como um todo. Um movimento pujante, que dispara novas formas de representação do que somos, do que podemos ser e do nosso entendimento enquanto coletividade negra. Boa leitura!

Equipe do filme Sem Asas

Lygia: Sempre gosto de começar pela trajetória das pessoas. Você pode nos contar sobre quem é você, de onde você vem e como chegou ao cinema? Como era sua relação com o cinema e o audiovisual durante a infância e adolescência?

Renata: Meu nome é Renata Cilene Martins, filha de Maria do Rosário Martins e José Elói Martins. Neta paterna de Natividade Procópio Martins e de Antonio Afonso Martins e neta materna de Geralda da Silva e José Altivo do Silva. Eu sou a mais nova de quatro irmãos. Nascida no carrão, e criada em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, onde resido até hoje.

Eu sempre gostei muito do universo das artes. Me lembro de que gostava de brincar com tintas, lápis de cores, ouvir e contar histórias. A gente tinha o LP do “Jonathan e a Gaivota” e ouvíamos sempre com as luzes apagadas, era uma de nossas brincadeiras preferidas.

Na infância, Tatida, minha falecida tia e madrinha, fazia questão de nos levar ao cinema sempre que tinha um lançamento. Era um ritual atravessar a cidade de transporte público para ir ao cinema e depois ao McDonald’s. Acho que vi todos os filmes da Xuxa e Trapalhões nas salas de cinema do centro de São Paulo. Sem dúvidas esses passeios na infância povoaram meu imaginário e influenciaram no meu gosto por cinema.  Já na adolescência eu gostava muito de assistir aos filmes que passavam na Sessão da Tarde, mas também alugava muita coisa em VHS.

O cinema como profissão entrou na minha vida junto com as políticas afirmativas, em 2005 na gestão Lula, pois eu fiz parte da primeira turma de estudantes que foram beneficiados pelo Prouni. 

L: Quais caminhos a levaram a criação dos filmes Aquém das Nuvens e Sem Asas?

R: O Aquém das Nuvens foi desenvolvido ao longo da universidade, num contexto de adoecimento de minha mãe. Ela estava com câncer e meu pai cuidou dela durante toda doença. Minha casa sempre foi cheia de amigos, familiares e festa. Meus pais eram muito afetivos e companheiros. Mesmo sem estar conectada com as discussões do movimento negro eu queria levar para a tela um pouco do cotidiano rodeado de afeto em que eu nasci e cresci. Foi a partir dessa premissa e do desejo de contar essa história que eu iniciei a escrita do roteiro e, posteriormente, o inscrevi no “Prêmio Estímulo”, edital de produção de curtas-metragens do Estado de São Paulo.

Aquém das Nuvens (2010)

Já o Sem Asas é o resultado de meu processo de reflexão sobre o extermínio da juventude negra e periférica.  Eu cresci vendo mães negras e periféricas mostrando a carteira de trabalho de seus filhos assassinados para provar que eles não eram bandidos, nos programas sensacionalistas de TV. Mas o caso do adolescente Douglas Martins, que foi assassinado num domingo à tarde quando saiu para comprar pão na zona norte de São Paulo, tomou proporção nacional e se conectou com casos de jovens e homens negros que foram assassinados nos Estados Unidos, por conta de terem dito frases impactantes antes de morrer: “Por que o senhor atirou em mim?” e “Eu não consigo respirar”.

Ano após ano o Estado genocida assassina nossos jovens e usa os autos de resistência ou qualquer outra justificativa “legal” para legitimar esse extermínio. O Sem Asas é a tentativa de humanizar a relação afetiva dessas famílias negras e periféricas e expor a política de morte do Estado Brasileiro, amparada pelo racismo institucional, que se figura  nos policiais, que são em sua maioria homens negros e periféricos. Foi a partir desse incômodo que o discurso se transformou em filme.

L: No curta Sem Asas, há uma preocupação dos pais em ensinar o filho a como enfrentar o racismo, sobretudo a violência policial, mas também aparece a palavra Sankofa (que simboliza a volta ao passado para imaginar o futuro) em um cartaz acompanhada da imagem de um super-herói negro com asas. Tenho observado no cinema feito por pessoas negras uma preocupação com a transmissão de mitologias, valores e modos de viver com raízes nas experiências da diáspora africana. Você poderia comentar essa questão?

R: Não sei se há uma preocupação dos pais em ensinar o Zu como enfrentar o racismo, visto que não há um manual de preparação, pois o racismo é sorrateiro, ele encontra várias e várias formas para se apresentar.  Mas há o desejo de dizer que o mundo lá fora não é fácil para pessoas como eles, seja por conta da classe, raça e gênero. E Zu aprende essa dura lição na prática.

A mitologia do Sankofa foi trazida pelos diretores de arte. Eu disse a eles que queria um super herói alado e eles me trouxeram a lenda de Sankofa. Eu já conhecia, mas não foi uma indicação minha, foi uma sugestão deles e eu achei que tinha tudo a ver com história dos  personagens. Akins e Jussara se lembram de seus pais e Zu também se lembrou da voz de seus pais quando estava em perigo. É uma releitura de que não podemos seguir sem olhar para trás, sem reverenciar os nossos ancestrais.

Não posso afirmar que seja uma característica fundante de um cinema negro contemporâneo. Mas acho que todos nós estamos dispostos a experimentar e trazer nossa ancestralidade para as telas. 

Sem Asas (2019)

L: Em Aquém das Nuvens e Sem Asas vejo a predominância do gênero realista e de uma estrutura dramática no roteiro. Mas chama a atenção em ambos os trabalhos, sobretudo no Sem Asas, os momentos em que os personagens olham a câmera de frente e ainda assim estabelecem um diálogo com a narrativa. Como você vê as potências e desafios no uso de recursos da linguagem cinematográfica em seu trabalho? E sobretudo, como vê a interlocução dos olhares — diegese, câmera, público — em suas narrativas?

R: O Sem asas flerta com o realismo fantástico, e sua estrutura é melodramática. Assim como o Aquém, que talvez flerte um pouco com a estrutura da tragédia, visto que o final é negativo.

Em Sem Asas o arco de Zu se assemelha ao rito de passagem da infância para adolescência. Dentro de casa ele é uma criança, mas ao sair para a rua ele é visto com um adolescente, um homem negro, e essa mudança é interna. O personagem nunca mais será o mesmo de antes. 

Eu vejo o cinema como um campo infinito de possibilidades criativa e discursiva. A cada produção eu trago elementos novos e ressignifico elementos antigos. O uso do travelling in no Aquém das Nuvens é diferente do uso no Sem Asas. Em Aquém ele serve para trazer um presságio de que aconteceu algo com sua amada. Em Sem Asas ele potencializa o medo de algo que está prestes a acontecer com o protagonista. A quebra da quarta parede também tem significado diferente nos dois filmes. Em Aquém, seu Nenê se confronta com seu próprio medo. Em Sem Asas o Zu compartilha sua impotência e indignação com o público. É como se ele dissesse: Vocês estão vendo isso? Até quando seu silêncio vai te manter estático tal qual um espectador numa sala de cinema? Nós, jovens negros estamos sendo exterminados! – Há um caminhão de discurso nessa quebra, que poderiam ser ditas com frases, mas escolhi quebrar a parede invisível que separa a realidade da ficção e o público da situação vivida por Zu.

L: E enquanto roteirista e diretora de ambos os filmes, como sente que imprime seu olhar sobre o mundo e sua subjetividade na direção cinematográfica? Você vê a sua trajetória pessoal naquilo que produz? 

R: Sim, eu costumo dizer que meus curtas e produtos audiovisuais são crônicas cotidianas potencializadas pela linguagem cinematográfica. É através da linguagem que eu dou forma às questões que me tocam e tento compartilhar com um público maior.

L: Em ambos os filmes, todos os personagens principais são pretos. Na obra de Beatriz Nascimento ela diz ver o corpo negro da diáspora como um território que carrega uma história individual e coletiva. Como você pensa a possibilidade de trabalhar no audiovisual uma vasta complexidade e variedade de imaginários negros?

R: Eu faço cinema em primeira pessoa. Ele passa por histórias vividas por mim e pelos meus semelhantes. Quanto mais personagens negros eu puder criar e atribuir subjetividade melhor. É desafiador criar e conseguir produzir histórias que destoam do imaginário racista e coletivo fomentado pela dramaturgia hegemônica.

Equipe do filme Sem Asas

L: Numa interpretação particular, a cena da mãe e do banho, no Sem Asas, remete a um ritual de ancestralidade e de sagrado. Como você lida com a questão da ancestralidade em seus filmes?

R: Essa cena é a mãe soprando a vida mais uma vez para sua cria. É um processo de reconexão e afeto. É o cuidado com a pele, é água como símbolo da vida. É o processo de cura. Pra mim o ancestral tem várias dimensões, seja os meus mais velhos; pais, avós e tias, ou a história que nos foi negada, às pessoas em diáspora que não conheci. Ancestralidade tem a ver com sensibilidade, respeito, escuta, ensinamento e coletividade. Acho que trago um pouco disso nas minhas produções, seja diante das telas, ou atrás dela.

L: Você ganhou dois prêmios Emmy Internacional, como parte da equipe de roteiristas. Você acha que seu trabalho é mais reconhecido e mais bem pago, em função disso?

R: Não, tenho certeza que não! Sinto que alguns autores brancos não me reconhecem como boa roteirista ou autora, mas como alguém que serve para alimentar suas narrativas e evitar que elas sejam racistas e sexistas. Porém, meu trabalho autoral, como a Websérie Empoderadas, Sem Asas e Aquém das Nuvens, todos premiados e celebrados por onde passam, escancaram o racismo nosso de cada dia que postergou minha ascensão econômica. Conheço poucos roteiristas brancos que tenham uma produção tão ampla como a minha, mas conheço muitos que ganham até dez vezes mais do que eu ganho. No entanto, acredito que meu trabalho tem inspirado uma geração de novos autores e diretores negres pelo Brasil afora, e isso é muito maravilhoso e dinheiro nenhum paga.

Equipe do filme Sem Asas

Notas de rodapé

  1. As entrevistas são parte da minha pesquisa de mestrado, que reflete sobre os olhares agenciados por diretoras negras do cinema brasileiro. Ao longo de dois anos e meio pude acompanhar, refletir e conversar com Viviane Ferreira, Everlane Moraes, Glenda Nicácio e Renata Martins. A pesquisa foi realizada pelo Programa de Pós Graduação em Meio e Processos Audiovisuais da ECA/USP com auxílio da FAPESP e do CNPq.